Sobre Peixes e Política

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Sobre Peixes e Política

Mensagem por Luiz Cruz em 12/07/12, 07:41 pm

SOBRE PEIXES E POLÍTICA

(Rubem Alves)


Tive um aquário no meu escritório. Quando a tensão era grande eu deixava de lado minhas coisas e ficava olhando os peixes que nadavam serenos em meio ao silêncio das plantas. Isto me fazia muito bem. Ficava tranqüilo. Muito bonitos eram os tricogaster (do grego “trics”, fio de cabelo; “gaster”, barriga), peixes de desenhos rendilhados e um par de longos cabelos saindo do ventre, um de cada lado. Descobri que o casal ia Ter filhotes. Fiquei feliz. Mudei os peixes estranhos para outro aquário: pais e filhos não podiam ser perturbados. Nasceram os filhotinhos, incontáveis. Eu me deleitava vendo o seu crescimento, como enchiam o aquário, sob a zelosa proteção do pai, que não se descuidava um só momento. Peixinhos felizes, eu pensei. Com tais cuidados paternos é certo que não sofrerão de neuroses ao crescer. E, de fato, não sofreram. Por não terem chegado a crescer. Numa bela manhã, como de costume, fui até o aquário para vê-los. E o que vi foi um pai solitário, com uma enorme barriga. Como a bruxa do “Joãozinho e Maria” ele só esperara que os pobrezinhos engordassem para então devorá-los.
Isto aconteceu faz tempo. Estava até esquecido. Lembrei-me em meio a uma leitura de Hobbes, em suas meditações sobre a origem do Estado. Ah! Como eram sua-ves as suas ilusões... Ele mesmo fazia pilhéria sobre a sua origem. Nasceu prematuro, ao que tudo indica, de aborto resultante do terror de sua mãe ante a iminência da chegada da armada espanhola. “O medo e eu somos irmãos gêmeos”, ele dizia. E, de fato, parece que sua teoria política nasceu do medo. Era certo que coisa mais terrível não poderia haver que a “guerra de todos contra todos”, em que os homens, em seu estado natural, se engalfinhavam, cada um só pensando no seu próprio interesse e na eliminação dos seus vizinhos. O homem é o lobo do homem: selva, pura selva... Foi então que os homens, cansados de sua loucura, e com medo da morte que morava neles, decidiram que era preciso estabelecer alguém como monarca. Somente assim, quando os muitos se subordinassem a um único, haveria possibilidade de ordem e paz. Este “Deus Mortal”, como Hobbes o denominava, seria o objeto da obediência de seus súditos. E, em troca, ele lhes daria o maior bem que poderiam desejar: a libertação do medo, a proteção contra o caos. Antes severidade e ordem que liberdade e caos. Antes o autoritarismo con-servador de De Gaulle que a liberdade incerta da imaginação estudantil (1968). Quando o caos aparece, sempre aparece também a nostalgia da ditadura benevolente. Para os que têm medo das incertezas da liberdade a espada tem sempre um efeito embalador...
Hobbes nada sabia sobre o tricogaster. Se o tivesse, suspeitaria que, não raro, os protetores se metamorfoseiam em devoradores. Tudo depende da fome. Foi assim que Cronos engoliu os seus filhos.
Imagino o pânico no aquário, uma vez iniciada a refeição. Os peixinhos, se pu-dessem, teriam fugido. Consta, inclusive, que há um número sem precedentes de brasi-leiros emigrando para o exterior... Inverte-se, assim, o esquema de Hobbes. Se o pai que protege unifica os irmãos, o pai que devora os dispersa, cada um para o seu lado.
A menos que Freud, entre Hobbes e tricogaster, seja aquele que está com a razão. Não, os irmãos não se dispersaram. Eles se uniram. Conspiraram. E concluíram que só seriam irmãos quando juntos matassem o pai. Tema que aparece, sutil, na deliciosa estória de “João e o pé de feijão”. No alto das nuvens, longe de qualquer CPI, o Gigan-te, “Deus Mortal”, dono da galinha dos ovos de ouro, fonte de riqueza inesgotável (sufi-ciente mesmo para construir ferrovias), e dono da harpa encantada, segredo da felicida-de. João rouba os bens do gigante, e corta o talo do feijão mágico. Entre nós: não é pos-sível que alguém esteja em altura tão grande por artimanhas de um simples pé de feijão. E João e sua mãe, juntos com os irmãos da lenda freudiana, puderam juntos iniciar a construção de uma felicidade maior sobre a terra...
E democracia não será precisamente isto? Quando os irmãos se reconhecem ór-fãos e tomam sobre os seus ombros a tarefa de organizar o seu mundo? Pais, por bene-volentes que sejam, acabam por devorar seus filhos quando a fome aperta.

Luiz Cruz
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