Resumo do Livro: Abóboda

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Resumo do Livro: Abóboda

Mensagem por Johnny-Five (J5) em 18/09/10, 06:00 pm

A Obra

É neste conto, A Abóbada, de Alexandre Herculano, publicado em O Panorama em 1839, que encontramos prova inequívoca do amor do autor pela pátria. Assim, o inflamado discurso do mestre Afonso Domingues, reclamando para um Português a construção do mosteiro da Batalha e condenando que tal empresa seja confiada a mestre Ouguet cuja alma "não é aquecida à luz do amor pela pátria".

O conto foi inspirado em Afonso Domingues, mestre arquiteto. A abóbada do Mosteiro da Batalha é o centro deste conto. Afonso Domingues, que se desdobrou para colocar D. João I no trono, estava construindo um mosteiro e no projeto fez uma abóbada incrível.

Mas em 1.401 ele ficou cego e o rei, D. João I, direcionado por seus conselheiros, resolveu chamar um arquiteto irlandês, mestre Ouguet, para concluir o projeto do mosteiro. Ele alterou o projeto da abóbada e, logo depois da obra terminada, a abóbada desaba sobre ele enquanto estava tendo um ataque.

D. João I, então, chama Afonso, restitui-lhe o emprego e este o aceita após muitas desculpas da parte do rei. Ele então passa três dias em jejum debaixo da abóbada e morre quando conclui que a abóbada tal como a projetou não cairá. Ouguet, que desdenhava de Afonso pois estava velho e cego, torna-se seu admirador.

O que transparece nesse conto é principalmente o nacionalismo de Herculano: o português honrado e que fora guerreiro estava certo, e o estrangeiro arrogante (bretão) estava errado e arrepende-se humildemente no final.

As obras de Alexandre Herculano são de cunho romântico e vão desde a poesia ao drama e ao romance. Foi, além de um dos mais importantes escritores portugueses do século XIX, o renovador do estudo da história de Portugal.

Obra na íntegra I – O CEGO
O dia 6 de Janeiro do ano da Redenção 1401 tinha amanhecido puro e sem nuvens. Os campos, cobertos aqui de relva, acolá de searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benéfico do Sol, verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para o lavrador.

Era um destes formosíssimos dias de Inverno mais gratos que os do Estio, porque são de esperança, e a esperança vale mais do que a realidade; destes dias, que Deus só concedeu aos países do Ocidente, em que os raios do Sol, que começa a subir na eclíptica, estirando-se vívidos e trémulos por cima da terra enegrecida pela humidade, e errando por entre os troncos pardos dos arvoredos despidos pelas geadas, se assemelham a um bando de crianças, no primeiro viço da vida, a folgar e a rolar-se por cima da campa, sobre a qual há muito sussurrou o último ai da saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento.

Era um destes dias antipáticos aos poetas ossiânico-regelo-nevoentos, que querem fazer-nos aceitar como cousa mui poética Esses gelos do Norte, esses brilhantes
Caramelos dos topes das montanhas; sem se lembrarem de que

Do sol do Meio-Dia aos raios vívidos,
Parvos! – se lhes derretem: a brancura
Perdem coa nitidez, e se convertem
De lúcidos cristais em água chilre;
destes dias, enfim, em que a Natureza sorri como a furto, rasgando o denso véu da estação das tempestades.

No adro do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgarmente chamado da Batalha, fervia o povo, entrando para a nova igreja, que de mui pouco tempo servia para as solenidades religiosas. Os frades dominicanos, a quem el-rei D. João I tinha doado esse magnífico mosteiro, cantavam a missa do dia debaixo daquelas altas abóbadas, onde repercutiam os sons do órgão e os ecos das vozes do celebrante, que entoava os quíries.

Mas não era para ouvir a missa conventual que o povo se escoava pelo profundo portal do templo para dentro do recinto sonoro daquela maravilhosa fábrica; era para assistir ao auto da adoração dos reis, que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde dentro da igreja e diante do rico presépio que os frades tinham alevantado junto do arco da Capela do Fundador, então apenas começada.

A concorrência era grande, porque os habitantes da Canoeira, de Aljubarrota, de Porto de Mós e dos mais lugares vizinhos, desejosos de ver tão curioso espectáculo, tinham deixado desertas as povoações para vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro.

Aprazível cousa era o ver, descendo dos outeiros para o vale por sendas torcidas, aquelas multidões, vestidas de cores alegres e semelhantes, no seu complexo, a serpentes imensas, que, transpondo as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo, reflectindo ao longe as cores variegadas da pele luzidia e lúbrica. Atravessando a pequena planície onde avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja corrente tinham tornado caudal as chuvas da primeira metade da estação invernosa.

No campo contíguo ao edifício, aqui e acolá, alevantavam-se casarias irregulares, algumas fechadas com suas portas, outras apenas cobertas de madeira e abertas para todos os lados, à maneira de simples telheiros.

As casas fechadas e reparadas contra as injúrias do tempo eram as moradas dos mestres e artífices que trabalhavam no edifício: debaixo dos telheiros viam-se nuns pedras só desbastadas, noutros algumas onde se começavam a divisar lavores, noutros, enfim, pedaços de cantaria, em que os mais hábeis escultores e entalhadores já tinham estampado os primores dos seus delicados cinzéis.

Mas o que punha espanto era a inumerável porção de pedras, lavradas, polidas e prontas para serem colocadas em seus lugares, que jaziam espalhadas pelo terreiro que, ao redor do edifício, se alargava por todos os lados: mainéis rendados, peças dos fustes, capitéis góticos, laçarias de bandeiras, cordões de arcadas, aí estavam tombados sobre grossas zorras ou ainda no chão, endurecido pelo contínuo perpassar de trabalhadores, oficiais e mais obreiros desta maravilhosa fábrica.

Quem de longe olhasse para aquele extenso campo, alastrado de tantos primores de escultura, julgara ver o assento de uma cidade antiquíssima, arrasada pela mão dos homens ou dos séculos, de que só restava em pé um monumento, o mosteiro.

E todavia, esses que pareciam restos de uma antiga Balbek não eram senão algumas pedras que faltavam para o acabamento dum convento de frades dominicanos, o Convento de Santa Maria da Vitória, vulgarmente chamado a Batalha!

Um quadrante de pedra, assentado em um canto do adro, apontava meio-dia. A igreja tinha sorvido dentro do seu seio desmesurado os habitantes das próximas povoações, e de todo o ruído e algazarra que poucas horas antes soava por aqueles contornos, apenas traspassavam pelas frestas e portas do templo os sons do órgão, soltando a espaços as suas melodias, que sussurravam e morriam ao longe, suaves como pensamento do Céu.

Não estava, porém, inteiramente ermo o terreiro da frontaria do edifício. Assentado sobre um troço de fuste, com os pés ao sol e o resto do corpo resguardado dos seus ardentes raios pela sombra de um telheiro, a qual se começava a prolongar para o lado do oriente, via-se um velho, venerável de aspecto, que parecia embrenhado em profundas meditações. Pendia-lhe sobre o peito uma comprida barba branca: tinha na cabeça uma touca foteada, um gibão escuro vestido, e sobre ele uma capa curta ao modo antigo.

A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas feições revelavam que dentro daqueles membros trémulos e enrugados morava um ânimo rico de alto imaginar. As faces do velho eram fundas, as maçãs do rosto elevadas, a fronte espaçosa e curva e o perfil do rosto quase perpendicular.

Tinha a testa enrugada, como quem vivera vida de contínuo pensar, e, correndo com a mão os lavores da pedra sobre que estava assentado, ora carregando o sobrolho, ora deslizando as rugas da fronte, repreendia ou aprovava com eloquência muda os primores ou as imperfeições do artífice que copiara à ponta de cinzel aquela página do imenso livro de pedra a que os espíritos vulgares chamam simplesmente o Mosteiro da Batalha.

Enquanto o velho cismava sozinho e palpava o canto, subtilmente lavrado, sobre que repousava os membros entorpecidos, à portaria do mosteiro, que perto dali ficava, outras figuras e outra cena se viam. Dois frades estavam em pé no limiar da porta e altercavam em voz alta: de vez em quando, pondo-se nos bicos dos pés e estendendo os pescoços, parecia quererem descobrir no horizonte, que as cumeadas dos montes fechavam, algum objecto; depois de assim olharem um pedaço, encolhiam os pescoços e, voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa, que levava seus visos de não acabar.

– Oh homem! – dizia um dos dois frades, a quem a tez macilenta e as barbas e cabelos grisalhos davam certo ar de autoridade sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias e na cor negra da barba povoada e revolta mais vigor de mocidade.

– Já disse a vossa reverência que el-rei me escreveu, de seu próprio punho, que viria assistir ao auto da adoração dos reis e, de caminho, veria a Casa do Capítulo, a que ontem mestre Ouguet mandou tirar os simples que sustentavam a abóbada.

– E nego eu isso? – replicou o outro frade. – O que digo é que me parece impossível que el- -rei venha, de feito, conforme a vossa paternidade prometeu em sua carta. Há muito que lá vai o meio-dia: daqui a pouco tocará a vésperas, e às duas por três é noite. Não vedes, padre-mestre, a que horas virá a acabar o auto? E este povo, este devoto povo que aí está, que aí vem, há-de ir com o escuro por esses descampados e serras, com mulheres, com raparigas...

– Tá, tá – interrompeu o prior. – Temos luar agora, e vão de consum. O caso não é esse, padre-procurador, o caso é se está tudo aviado para agasalharmos el-rei e os de sua companha.

– Oh lá, quanto a isso, nada falta. Desde ontem que tenho tido tanto descanso como hoste ou cavalgada de castelhanos diante das lanças do Condestável; o pior é que, segundo me parece, e dizei o que quiserdes, opus et oleum perdidi (1).

– Não falta quem tarda: el-rei não quebrará a palavra ao seu antigo confessor. O que quero é que todos os noviços e coristas que têm de fazer suas representações no auto estejam a ponto e vestidos, para ele começar logo que sua senhoria chegue.

– Nada receeis, que tudo está preparado; do que duvido é de que comecemos, se por el-rei houvermos de esperar.
O frade mais velho fez, a estas palavras, um gesto de impaciência e, sem dar resposta ao seu pirrónico interlocutor, estendeu outra vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade do hábito uma espécie de sobrecéu para resguardar os olhos dos raios do Sol, que, já muito inclinado para o ocidente, batia de chapa no portal onde os dois reverendos estavam altercando.

Porém, meio descoroçoado, o dominicano logo abaixou os olhos: nem o mínimo vulto se enxergava no horizonte; e neste abaixar de olhos viu o cego, que estava ainda assentado sobre o fuste da coluna.
Para escapar, talvez, às reflexões do seu confrade, o reverendo bradou ao velho:

– Oh lá, mestre Afonso Domingues, bem aproveitais o soalheiro! Não vos quero eu mal por isso; que um bom sol de Inverno vale, na idade grave, mais que todos os remédios de longa vida que em seus alforges trazem por aí os físicos.
Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal e encaminhou-se para o cego.
– Quem é que me fala? – perguntou este, alçando a cabeça.

– Frei Lourenço Lampreia, vosso amigo e servidor, honrado mestre Afonso. Tão esquecida anda já minha voz em vossas orelhas, que me não conheceis pela toada?

– Perdoai-me, mui devoto padre-prior – atalhou o velho, tenteando com os pés o chão para erguer-se, no momento em que Frei Lourenço Lampreia chegava junto dele, seguido do seu confrade Frei Joane, procurador do mosteiro. – Perdoai-me! Foi-se o ver, vai-se o ouvir. Em distância, já não acerto a distinguir as falas.

– Estai quedo; estai quedo, mestre Afonso – disse Frei Lourenço, segurando o cego pelo braço. – O indigno prior do Mosteiro da Vitória não consentirá que o mui sabedor arquitecto e imaginador Afonso Domingues, o criador da oitava maravilha do Mundo, o que traçou este edifício, doado pelo virtuoso de grandes virtudes rei D. João à nossa Ordem, se alevante para estar em pé diante do pobre frade...

– Mas esse religioso – interrompeu o cego – é o mais abalizado teólogo de Portugal, o amigo do mui excelente doutor João das Regras e do grande Nun’Álvares, e privado e confessor de el-rei; Afonso Domingues é apenas uma sombra de homem, um troço de capitel partido e abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto, de quem já ninguém faz caso. Se vossa caridade e humildosa condição vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não achareis nisso muitos de vossa igualha.

– De merencório humor estais hoje – disse o prior, sorrindo. – Não só eu vos amo e venero: el-rei me fala sempre de vós em suas cartas. Não sois cavaleiro de sua casa? E a avultada tença que vos concedeu em paga da obra que traçastes e dirigistes, enquanto Deus vos concedeu vista, não prova que não foi ingrato?

– Cavaleiro!? – bradou o velho. – Com sangue comprei essa honra! Comigo trago a escritura. – Aqui, mestre Afonso, puxando com a mão trémula as atacas do gibão, abriu-o e mostrou duas largas cicatrizes no peito. – Em Aljubarrota foi escrito o documento à ponta de lança por mão castelhana: a essa mão devo meu foro, que não ao Mestre de Avis. Já lá vão quinze anos!

Então ainda estes olhos viam claro, e ainda para este braço a acha de armas era brinco. El-rei não foi ingrato, dizeis vós, venerável prior, porque me concedeu uma tença!? Que a guarde em seu tesouro; porque ainda às portas dos mosteiros e dos castelos dos nobres se reparte pão por cegos e por aleijados.

Proferindo estas palavras, o velho não pôde continuar: a voz tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados caíam-lhe pelas faces encovadas duas lágrimas como punhos. A Frei Lourenço também se arrasaram os olhos de água. Frei Joane, esse olhou fito para o cego durante algum tempo, com o olhar vago de quem não o compreendia.

Depois, a ideia da tardança de el-rei e da tardança do auto, que, entrando pelas horas de cear e dormir, iria fazer uma brecha horrorosa na disciplina monástica, veio despertá-lo como espinho pungente. Começou a bufar e a bater o pé, semelhante ao corredor brioso do Livro de Job e da Eneida.

Entretanto, o arquitecto havia-se posto em pé: um pensamento profundamente doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada, e houve um momento de silêncio. Por fim, segurando com força a manga do hábito de Frei Lourenço, disse-lhe:

– Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado da Divina Comédia do florentino Dante.
– Li já, e mais de uma vez – respondeu o prior. – É obra-prima, daquelas a que os Gregos chamavam epos, id est, enarratio et actio, segundo Aristóteles; e se não houvesse nessa escritura algumas ousadias contra o papa...

– Pois sabei, reverendo padre – prosseguiu o arquitecto, atalhando o ímpeto erudito do prior –, que este mosteiro que se ergue diante de nós era a minha Divina Comédia, o cântico da minha alma: concebi-o eu; viveu comigo largos anos, em sonhos e em vigília: cada coluna, cada mainel, cada fresta, cada arco, era uma página de canção imensa; mas canção que cumpria se escrevesse em mármore, porque só o mármore era digno dela.

Os milhares de favores que tracei em meu desenho eram milhares de versos; e porque ceguei arrancaram-me das mãos o livro, e nas páginas em branco mandaram escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporais estavam mortos, não o estavam os do espírito.

O estranho a quem deram meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram nessa pedra que o meu alento não a bafejara. Que direito tinha o Mestre de Avis para sulcar com um golpe do seu montante a face de um arcanjo que eu criara? Que direito tinha para me espremer o coração debaixo dos seus sapatos de ferro? Dava lho o ouro que tem despendido? O ouro!... Não!

O Mestre de Avis sabe que o ouro é vil; só é nobre e puro o génio do homem. Enganaram no: vassalos houve em Portugal que enganaram seu rei! Este edifício era meu; porque o gerei; porque o alimentei com a substância da minha alma; porque necessitava de me converter todo nestas pedras, pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar perpetuamente por essas colunas e por baixo dessas arcarias.

E roubaram me o filho da minha imaginação, dando me uma tença!... Com uma tença paga se a glória e a imortalidade? Agradeço vos, senhor rei, a mercê!... Sois em verdade generoso... mas o nome de mestre Ouguet enredar se á no meu ou, talvez, sumirá este no brilho de sua fama mentida...

O cego tremia de todos os membros: a veemência com que falara exaurira lhe as forças: os joelhos vergaram lhe, e assentou se outra vez em cima do fuste. Os dois frades estavam em pé diante dele.

– Estais mui perturbado pela paixão, mestre Afonso – disse Frei Lourenço, depois de larga pausa –, por isso menoscabais mestre Ouguet, que era, talvez, o único homem que aí havia capaz de vos substituir. Quanto a vós, pensaram os do conselho de el rei que deviam propor lhe vos desse repouso e honrado sustentamento para os cansados dias.

Ninguém teve em mente ofender o mais sabedor e experto arquitecto de Portugal, cuja memória será eterna e nunca ofuscada.

– Obrigado – atalhou o velho – aos conselheiros de el rei pelos bons desejos que em meu prol têm. São políticos, almas de lodo, que não compreendem senão proveitos materiais. Dão me o repouso do corpo e assassinam me o da alma! Acerca de mestre Ouguet, não serei eu quem negue suas boas manhas e ciência de edificar: mas que ponha ele por obra suas traças, e deixem me a mim dar vulto às minhas.

E demais: para entender o pensamento do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, cumpre ser português; cumpre ter vivido com a revolução que pôs no trono o Mestre de Avis; ter tumultuado com o povo defronte dos paços da adúltera; ter pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido em Aljubarrota.

Não é este edifício obra de reis, ainda que por um rei me fosse encomendado seu desenho e edificação, mas nacional, mas popular, mas da gente portuguesa, que disse: não seremos servos do estrangeiro e que provou seu dito.

Mestre Ouguet, escolar na sociedade dos irmãos obreiros, trabalhou nas sés de Inglaterra, de França e de Alemanha, e aí subiu ao grau de mestre; mas a sua alma não é aquecida à luz do amor da pátria; nem, que o fosse, é para ele pátria esta terra portuguesa. Por engenho e mãos de portugueses devia ser concebido e executado, até seu final remate, o monumento da glória dos nossos; e eis aí que ele chamou de longes terras oficiais estranhos, e os naturais lá foram mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimarães.

Sei que não seriam nem eles nem eu quem pusesse esse remate; mas nós deixaríamos sucessores que conservassem puras as tradições da arte. Perder se á tudo; e, porventura, tempo virá em que, nesta obra dos séculos, não haja mãos vigorosas que prossigam os lavores que mãos cansadas não puderam levar a cabo. Então o livro de pedra, o meu cântico de vitória, ficará truncado. Mas Afonso Domingues tem uma pensão de el rei...

Em uma das casas que ficavam mais próximas, daquelas de que fizemos menção no princípio deste capítulo, ergueu se a adufa de uma janela no momento em que o cego proferia as últimas palavras, e uma velha, em cuja cabeça alvejava uma toalha mui branca, gritou da janela:

– Mestre Afonso, quereis recolher-vos? Está pronta a ceia, e começa a cair a orvalhada, que a tarde vai nevoenta.
– Vamos lá, vamos lá, Ana Margarida; vinde guiar-me.
E Ana Margarida, ama de mestre Afonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cinta, e o fuso espetado entre o linho e o ourelo que o apertava. Chegando ao pé do velho, tocou-lhe com o braço, em que ele se firmou, tornando a erguer-se.

– Boas tardes, padre-prior – disse a ama, fazendo sua mesura, seguida de um lamber de dedos e de dois puxões nas barbas da estriga quase fiada.
– Vá na graça do Senhor, filha – respondeu Frei Lourenço, e acrescentou, dirigindo-se ao cego:
– Meu irmão, Deus aceita só ao homem, em desconto da grande dívida, a dor calada e sofrida. Resignai-vos na sua divina vontade.

– Na dele estou eu resignado há muito: na dos homens é que nunca me resignarei.
E Ana Margarida, que tinha a ceia ainda no lume, foi puxando o cego para a porta de casa.
– Ai, Afonso Domingues, Afonso Domingues! Vai-se-te após a vista o siso. Aborrecida cousa é a velhice. Não vos parece, Frei Joane?
Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que supunha estaria atrás dele; mas Frei Joane tinha desaparecido dali manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Frei Lourenço viu-o em pé sobre uma pedra a alguma distância.

O prior ia a perguntar-lhe o que fazia ali, quando o reverendo procurador saltou a correr, bradando:
– Ganhastes, padre-prior; ganhastes!... Eis el-rei que chega.
E, com efeito, Frei Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavaleiros, que, com grande açodamento, descia para o vale do mosteiro.

II – MESTRE OUGUET
Uma das inumeráveis questões que, em nosso entender, eternamente ficarão por decidir, é a que versa sobre qual dos dois ditados Voz do povo é voz de Deus ou Voz do povo é voz do Diabo seja o que exprima a verdade. É indubitável que o povo tem uma espécie de presciência inata, de instinto divinatório.

Quantas vezes, sem que se saiba como ou porquê, corre voz entre o povo que tal navio saído do porto, tão rico de mercadorias como de esperanças, se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e a voz popular realiza-se com exacção espantosa. Assim de batalhas; assim de mil factos. Quem dá estas notícias?

Quem as trouxe? Como se derramaram? Mistério é esse que ainda ninguém soube explicar. Foi um anjo? Foi um demónio? Foi algum feiticeiro? Mistério. Não há, nem haverá, talvez, nunca, filósofo que o explique; salvo se tal fenómeno é uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio ininteligível de dar solução a tudo o que se não entende é acaso a única via de resolver a dúvida. Se o é, os sábios explicarão o que nesse momento ocorria na Igreja de Santa Maria da Vitória.

Foi o caso: quando a cavalgada de que fizemos menção no fim do antecedente capítulo vinha descendo a encosta sobranceira à planície do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja, impaciente já pela demora do auto, começou-se a espalhar um sussurro, que cada vez crescia mais. O motivo dele, não era fácil sabê-lo: nenhuma novidade ocorrera; ninguém tinha entrado ou saído.

De repente, toda aquela multidão se agitou, remoinhou pela igreja e principiou a borbulhar pelo portal fora, como por bico de funil o líquido deitado de alto.

Tinham sabido que el-rei chegava, e todos queriam vê-lo descavalgar, porque D. João I, plebeu por herança materna, nobre por ser filho de D. Pedro, rei eleito por uma revolução e confirmado por cinquenta vitórias, era o mais popular, o mais amado e o mais acatado de todos os reis da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e, assim mesmo, em outras os fidalgos e cavaleiros de sua casa. Trazia vestida sobre o brial uma jórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em maneira de caçada.

Chegando à porta do mosteiro, onde o esperava já Frei Lourenço com parte da comunidade, apeou-se de um salto e, com rosto risonho e a mão no barrete, agradeceu sua cortesia e aquelas mostras de amor aos populares, que gritavam, apinhados à roda dele: Viva D. João I de Portugal; morram os Castelhanos!, grito absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o bramido que revela a sua índole sanguinária.
Por baixo daquelas soberbas arcadas desapareceu brevemente el-rei da vista da multidão, que tornou a sumir-se no templo para ver o auto, que não podia tardar.

– Muito receoso estava de que vossa real senhoria nos não honrasse nosso auto; porque o Sol não tarda a sumir-se no poente – dizia Frei Lourenço a el-rei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.
– Bofé, mui devoto padre-prior, que, por pouco, estive a ponto de ter que levar a vossos pés mais uma mentira, com os outros pecados, que me não falecem, se amanhã me quisesse confessar ao meu antigo confessor – tornou-lhe el-rei, sorrindo-se.

– E certo estou de que, entre todos os pecados de que teríeis de vos acusar, este não fora o menos grave, e de que eu a muito custo absolveria vossa mercê – retrucou o prior, que tinha aprendido ainda mais depressa as manhas cortesãs no paço, do que a teologia no noviciado da sua Ordem.
– Mas, para onde me guiais, reverendíssimo prior? – disse el-rei, parando antes de subir uma escada, para a qual Frei Lourenço o encaminhava.

– Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeição e repouseis um pouco do trabalho do caminho.
– Não foi grande o feito, para tomar repouso – acudiu el-rei –, que de Santarém aqui é uma corrida de cavalo; muito mais para quem, em vez de cota de malha, arnês e braçais, traz vestidos de seda. Despi-los-ei bem depressa, já que el-rei de Castela quer jogar mais lançadas, e não vieram a conclusão de tréguas o Mestre de Sant’Iago com o Condestável.

Mas vamos, meu doutíssimo padre; mostrai-me a Casa do Capítulo, a que mestre Ouguet acabou de pôr seu fecho e remate. Onde está ele? Quero agradecer-lhe a boa diligência.

– Beijo-vos as mãos pela mercê – disse mestre Ouguet, que, sabendo da chegada de el-rei, e certo de que ele desejaria ver aquela grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da comitiva. – Se quereis ver a Casa do Capítulo, vamos para a banda da crasta.

Dizendo isto, sem cerimónia tomou a dianteira e encaminhou-se ao longo de um dos cobertos do claustro.
David Ouguet era um irlandês, homem mediano em quase tudo; em idade, em estatura, em capacidade e em gordura, salvo na barriga, cujos tegumentos tinham sofrido grande distensão em consequência da dura vida que a tirania do filho de Erin lhe fazia padecer havia bem vinte anos.

Desde muito moço que começara a produzir grande impressão no seu espírito a invectiva do apóstolo contra os escravos do próprio ventre, e, para evitar essa condenável fraqueza, resolvera trazê-lo sempre sopeado.

Não lhe dava tréguas; se em Inglaterra o fizera muitos anos vergar sob o peso de dez atmosferas de cerveja, em Portugal submetia-o ao mais fadigoso mister de canjirão permanente. Mortificava-o assim, para que não lhe acudissem soberbas e veleidades de senhorio e dominação.

De resto, David Ouguet era bom homem, excelente homem: não fazia aos seus semelhantes senão o mal absolutamente indispensável ao próprio interesse; nunca matara ninguém, e pagava com pontualidade exemplar ao alfaiate e ao merceeiro.

Prudente, positivo, e prático do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre o cadáver de seu pai para tocar a meta de qualquer desígnio ambicioso. Com três lições de frases ocas, dava pano para se engenharem dele dois grandes homens de estado.

Tendo vindo a Portugal como um dos cavaleiros do duque de Lencastre, procurou obter e alcançou a protecção da rainha D. Filipa, que, havendo Afonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do Mosteiro da Batalha, mostrando ele por documentos autênticos ter na sua mocidade subido ao grau de mestre na sociedade secreta dos obreiros edificadores.

Esta é, em breve resumo, a história de David Ouguet, tirada de uma velha crónica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaça encadernada em um volume juntamente com os traslados autênticos das Cortes de Lamego, do Juramento de Afonso Henriques sobre a aparição de Cristo, da Carta de feudo a Claraval, das Histórias de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papéis de igual veracidade e importância que, por pirraça às nossas glórias, provavelmente os Castelhanos nos levaram durante a dominação dos Filipes.

O lanço da crasta, fronteira ao coberto por onde ia el-rei, estava ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquele magnífico recinto, olhou para lá e, voltando-se para mestre Ouguet, disse:

– Parece-me que não vão tão aprimorados os lavores daquelas arcarias como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?

– Seguiu-se à risca nesta parte – tornou o arquitecto – o desenho geral do edifício, feito por mestre Afonso Domingues; porque seria grave erro destruir a harmonia desta peça: mas se vossa mercê mo permite, antes de entrardes no Capítulo tenho alguma cousa que vos dizer acerca do que ides presenciar.
– Falai desassombradamente – respondeu el-rei –, que eu vos escuto.

– Tomei a ousadia – prosseguiu mestre Ouguet – de seguir outro desenho no fechar da imensa abóbada que cobre o Capítulo. O que achei na planta geral contrastava as regras da arte que aprendi com os melhores mestres de pedraria. Era, até, impossível que se fizesse uma abóbada tão achatada, como na primitiva traça se delineou: eu, pelo menos, assim o julgo.

– E consultastes o arquitecto Afonso Domingues, antes de fazer essa mudança no que ele havia traçado? – interrompeu el-rei.
– Por escusado o tive – replicou David Ouguet. – Cego, e por isso inabilitado para levar a cabo a edificação, porfiaria que o seu desenho se pode executar, visto que hoje ninguém o obriga a prová-lo por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale isso sem a ciência, como dizia o venerável mestre Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que havemos mister.

Dizendo isto, o arquitecto metera ambas as mãos no cinto, estendera a perna direita excessivamente empertigada e, com a fronte erecta, volvera os olhos solene e lentamente para os circunstantes.

– Mestre Ouguet – acudiu el-rei, com aspecto severo –, lembrai-vos de que Afonso Domingues é o maior arquitecto português. Não entendo de vossas distinções de ciência e de engenho: sei só que o desenho de Santa Maria da Vitória causa assombro a vossos próprios naturais, que se gabam de ter no seu país os mais afamados edifícios do Mundo: e esse mestre Afonso, de quem vós falais com pouco respeito, foi o primeiro arquitecto da obra que a vosso cargo está hoje.

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Fonte: Mundo Vestibular
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Johnny-Five (J5)
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